História
DESIGNAÇÃO DO NOME
A designação do lugar, não definida no registo cadastral enquanto espaço administrativo, pertence sobretudo ao domínio da tradição oral dos seus habitantes. Embora não existam dados totalmente precisos quanto à origem da denominação da freguesia, o Estreito de Câmara de Lobos deverá o seu nome a um pequeno núcleo populacional situado nas proximidades do local onde atualmente se encontra implantada a igreja paroquial.
Esse lugar, devido às suas características físicas e orográficas — nomeadamente a configuração mais estreita do terreno — passou a ser conhecido entre a população local como “Estreito”. Segundo a tradição, quando os habitantes referiam que se deslocavam ao Estreito, estavam a aludir à área envolvente da igreja matriz ou à sua vizinhança imediata, expressão que acabou por consolidar-se como topónimo da freguesia.
CRIAÇÃO DA FREGUESIA
Com base no estudo da Professora Rita Rodrigues, “Igreja de Nossa Senhora da Graça do Estreito de Câmara de Lobos. Parte I - Contributos para a sua história". Girão: Revista de Temas Culturais do Concelho de Câmara de Lobos. Câmara de Lobos: Câmara Municipal de Câmara de Lobos. Vol. II, n.º 6 (2.º semestre de 2011), pp. 5-52. Criamos uma cronologia da Igreja de Nossa Senhora da Graça do Estreito de Câmara de Lobos e da sua paróquia é composta pelos seguintes marcos históricos:
Séculos XVI e XVII: Origens e Manutenção do Antigo Templo
• 1509 / 1519: Datas apontadas como prováveis para a constituição da paróquia, sendo o ano de 1519 fundamentado por registos de pagamento ao vigário em 1520.
• 1539 (13 de dezembro): Documento mais antigo que atesta a vida paroquial, mencionando o padre Sebastião Vaz como vigário.
• 1560: Ano em que, segundo registos posteriores, a igreja original teria sido ereta.
• 1572 (20 de janeiro): Alvará de D. Sebastião que aumentou a côngrua do pároco para 20$000 rs.
• 1581 (22 de fevereiro): A igreja recebe um retábulo pintado e dourado.
• 1589: Realização de obras de conserto na sacristia.
• 1607-1608: O retábulo de 1581 sofre retoques e nota-se a degradação das paredes e do telhado devido à humidade.
• 1643-1675: Período do vigário Luís Gonçalo Velho, marcado por várias visitas eclesiásticas que denunciam o estado de ruína do templo e a pobreza dos fregueses.
• 1676 (21 de abril): Disponibilização de uma verba de 200$000 rs para obras na igreja, após petição que alertava para o risco de ruína.
• 1690-1692: Início de uma campanha de "acrescentamento" e consertos, com a aquisição de novos ornamentos e o retelhamento da capela-mor.
Século XVIII: A Reificação do Atual Templo
• 1710: Vigário e paroquianos confirmam a edificação de uma capela, retábulo e sacrário para o Santíssimo Sacramento.
• 1734 (14 de abril): A Confraria da Salvação recebe 150$000 rs para a compra de ornamentos vindos de Lisboa.
• 1744-1746: O vigário Manuel Borges de Alemanha solicita a reedificação total da igreja, alegando que a antiga estava em ruínas e era pequena demais para a população.
• 1747 (2 de maio): Assinatura do orçamento para a nova igreja, englobando obras de pedraria e carpintaria.
• 1748 (1 de abril): Um terramoto danifica gravemente a igreja antiga, apressando o processo de construção.
• 1748 (14 de novembro): A obra é arrematada por Manuel Rodrigues da Costa por 7:589$000 rs.
• 1753 (3 de fevereiro): Lançamento e benção da primeira pedra da atual Igreja de Nossa Senhora da Graça.
• 1756 (18 de janeiro): Benção da capela-mor e conclusão da sacristia.
• 1758 (27 de novembro): Ordem para a feitura do risco do retábulo do altar-mor, tribuna e trono.
• 1764 (maio): Início da campanha de pintura e talha, executada inicialmente pelo entalhador Julião Francisco Ferreira.
• 1766 (6 de novembro): Início da pintura do apainelado da capela-mor.
• 1769-1772: Vistorias finais confirmam a conclusão da igreja, embora com algumas ressalvas sobre materiais e a falta do campanário.
• 1776: Data que assinala a conclusão da pintura e douramento do templo, sob a direção de João António Villavicêncio.
• 1788 (8 de janeiro): Acerto final das dívidas relativas à construção da igreja.
Séculos XIX e XX: Manutenção e Modernização
• 1803-1811: Nova campanha de obras que incluiu o estradamento do pavimento, reparação do telhado e a construção da residência paroquial.
• 1814: A igreja é solenemente consagrada pelo Bispo D. Frei Joaquim de Meneses Ataíde.
• 1829 (6 para 7 de novembro): Ocorre um roubo sacrílego violento na igreja, que ganha repercussão nacional.
• 1850 (28 de setembro): Confirmação de obras de reparo no templo.
• 1906: Benção dos quadros da Via-Sacra.
• 1924-1937: Notícias sobre o conserto da torre e a inauguração do relógio.
• 1964: Criação de uma comissão para a ampliação da torre e construção de instalações sanitárias
Com base no artigo do Funchal Notícias publicado em 23 de novembro de 2025, de autoria de Nelson Veríssimo, preparei a seguinte cronologia detalhada sobre a história e o património da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos:
Século XVI
- 1518 – 1520: Período provável da fundação da paróquia (a data exata é desconhecida).
- 1520: Primeira evidência documental da existência da paróquia, registando-se o pagamento do vencimento do vigário pela Coroa. O orago escolhido foi Nossa Senhora da Graça.
Século XVIII
- 30 de julho de 1744: O Conselho da Fazenda autoriza a elaboração do risco (planta) e orçamento para uma nova igreja, uma vez que a anterior estava arruinada e era pequena para a população crescente.
- 2 de maio de 1747: O mestre das Obras Reais (João Martins de Abreu) e o mestre pedreiro (Pedro Fernandes Pimenta) apresentam o orçamento para a obra.
- 25 de junho de 1747: A obra é arrematada pelo mestre pedreiro Manuel Rodrigues da Costa pelo valor de 7 contos e 579 mil réis.
- 31 de março de 1748: Um terramoto provoca danos sérios na igreja então existente e na casa do vigário.
- 1749: Início oficial das obras de construção do novo templo (a atual Igreja Matriz), implicando a demolição parcial da estrutura antiga.
- 1756: A nova igreja fica praticamente concluída, assinalando-se este ano com a bênção da capela-mor.
Século XX (Início e Expansão)
- 21 de janeiro de 1904: Chegada do primeiro carro. Trata-se de um marco histórico não só para a freguesia, mas para a Madeira, pois foi a primeira vez que um automóvel circulou fora dos limites da cidade do Funchal. O veículo era um De Dion-Bouton, propriedade de Harvey Foster, que subiu do Porto de Câmara de Lobos até à vila do Estreito rodeado por uma multidão de curiosos.
- 11 de julho de 1910: Inauguração do Posto Telefónico. No dia 11 de julho de 1910, foi inaugurado o posto telefónico do Estreito de Câmara de Lobos. Este evento foi de extrema importância para a economia local, facilitando a comunicação entre os produtores e exportadores de vinho e a cidade do Funchal.
- Década de 1920: Melhoria das Acessibilidades. A progressiva melhoria dos caminhos e a chegada de novos veículos motorizados consolidaram a ligação do Estreito ao resto da ilha, permitindo um escoamento mais rápido dos produtos agrícolas.
- 1 de agosto de 1926: Inauguração do “Cinema Terraço”, a primeira sala da nossa região a projetar filmes para além dos limites do Funchal.
- 14 de setembro 1994: A freguesia do Estreito de Câmara de Lobos é elevada à categoria de Vila, conforme diploma regional.
Como podemos constatar, não há certeza quanto à fundação da Paróquia do Estreito. As datas avançadas para a criação da paróquia do Estreito de Câmara de Lobos pela Professora Rita Rodrigues, apoiando-se em Álvaro Rodrigues de Azevedo, ou se situam cronologicamente num período em que ainda não existia a Diocese do Funchal e o poder religioso estava nas mãos da Ordem de Cristo, ou, por outro lado, correspondem aos anos de 1519/1520, apontando para uma criação da paróquia sob a alçada do Bispado do Funchal, constando dos registos do chamado Cabido da Sé, registos esses que, até ao momento, não foram encontrados.
De qualquer modo, registo que seria necessária uma investigação longa e aprofundada sobre o assunto para que se pudesse determinar, com maior segurança, uma data fundacional. As datas que nos surgem atualmente são, sobretudo, curiosidades de âmbito local que podem e devem ser celebradas culturalmente, mas não assumidas de forma institucional.
A única data que se revela como tendo verdadeira importância institucional e impacto a nível local é, sem dúvida, a elevação da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos à categoria de Vila. Este momento reconhece o peso socioeconómico do Estreito de Câmara de Lobos aos olhos do Governo Regional. Assim, dispomos de uma data historicamente verificada, que deve ser enaltecida até ao dia em que encontremos, nos confins da história, aquela data que todos procuramos e que marca realmente o início daqueles homens e mulheres que decidiram chamar de casa a esta encosta acima da terra descoberta por Gonçalves Zarco, cheia de pomares.
ELEVAÇÃO A VILA
A freguesia do Estreito de Câmara de Lobos foi elevada à categoria de vila em 14 de setembro de 1994, conforme publicado no Decreto Legislativo Regional n.º 24/94/M, constante do Diário da República I Série‑A n.º 213.
De acordo com a proposta apresentada para a sua elevação, a freguesia reunia plenamente as condições estabelecidas pela Lei n.º 11/82, que define os critérios para a atribuição da categoria de vila. À data, o Estreito apresentava um significativo desenvolvimento demográfico e socioeconómico, contando com cerca de 13 000 habitantes e um núcleo populacional contínuo superior a 4 000 cidadãos eleitores.
A atividade económica local baseava-se sobretudo na construção civil, no comércio e na agricultura, destacando-se particularmente a cultura da vinha e a produção do vinho negramole, produto de grande tradição na região. Em menor escala, desenvolviam-se também a horticultura e a fruticultura, sobressaindo a produção de cereja, amplamente associada à freguesia.
Um dos aspetos mais característicos da vida social do Estreito era o intenso movimento que se verificava no centro da localidade nas manhãs de domingo, assumindo características semelhantes às de uma feira tradicional. Nesse espaço realizava-se a venda de produtos agrícolas, materiais de construção, vestuário e até animais, sendo igualmente ocasião para a celebração de negócios, contratação de trabalhadores e regularização de acordos de trabalho.
A freguesia conservava ainda algumas quintas senhoriais, com casas solarengas que, outrora, serviam de residência de verão a famílias nobres e a comerciantes abastados do Funchal.
Do ponto de vista turístico e paisagístico, o Estreito apresenta vários locais de interesse, destacando-se panoramas de grande beleza natural como a Boca dos Namorados, a Boca da Corrida e o Jardim da Serra.
Nos anos que antecederam a elevação a vila, a freguesia revelou igualmente uma dinâmica cultural significativa. A Casa do Povo desempenhou um papel relevante na promoção de iniciativas culturais e comunitárias, destacando-se eventos de grande expressão popular como a Festa da Cereja e a Festa das Vindimas.
Entre as associações culturais mais representativas figuram o Grupo Coral do Estreito e o Grupo Desportivo do Estreito, este último assumindo particular relevância não apenas pela sua atividade desportiva, mas também pela promoção cultural, nomeadamente através da publicação da revista Girão e da emissão da Rádio Girão.
Paralelamente, a freguesia dispunha já de diversos equipamentos e serviços coletivos, entre os quais dois centros de saúde, farmácias, consultórios médicos, biblioteca, transportes públicos, estação dos CTT, estabelecimentos de ensino, agências bancárias, comércio diversificado e infraestruturas ligadas à produção e armazenamento de vinho Madeira.
Este conjunto de fatores demonstrava um nível de desenvolvimento significativo, justificando plenamente a atribuição do estatuto de vila à freguesia do Estreito de Câmara de Lobos.

